sábado, 7 de maio de 2011

Velhas derrotas, novos tabus.

Jornalista Alex Medeiros - Jornal de Hoje.

Voltemos ao tema, meus amigos e inimigos. Não pude esquecer, ontem, o comentário da jovem repórter, feito há duas semanas, de que os clubes argentinos não querem se acostumar a perder para os seus similares brasileiros.

Gosto e incentivo, quando posso, as novas gerações da chamada crônica esportiva, até para que não repitam as baboseiras vomitadas quase que diariamente em alguns espaços da mídia tradicional e, agora, minuto a minuto, na chamada mídia virtual das redes.

Desculpem-me a insistência no assunto, mas é para o bem da profissão: deixem logo de lado a patriotada e o pachequismo quando estiverem trabalhando no campo esportivo. Tal sentimento atropela a razão e dribla a verdade dos fatos.

Ontem, na quarta-feira de cinzas do futebol nacional, enquanto muitos se mostravam surpresos com o “strike” que derrubou de uma vez só quatro times brasileiros na Taça Libertadores, eu ria com a repetição histórica que mantém o futebol tupiniquim sempre devendo no torneio continental.

Lembrei da jovem repórter e dos imberberes comentaristas espalhados nos canais esportivos, nos portais ludopédicos, nas redes sociais com seus milhares de pretensos técnicos de futebol em ação. Naufragar na Libertadores, meus caros, é lugar comum para os brasileiros.

Lembrei também de dois garotos ufanistas, meus leitores, que derramam semanalmente no Twitter o bom entendimento sobre o esporte bretão, mas invariavelmente contaminado pela cegueira patriótica, essa doença maníaca que atrapalha a boa visão do jogo.

Um deles outro dia insistia na teimosia de afirmar que o domínio argentino e uruguaio no campeonato sul-americano era coisa do passado, que este escriba cinquentão tinha a mania de transferir estatísticas antigas para o debate atual. Aí lembrei do seu sumiço após as contraprovas.

Convidei-o, então, a analisar apenas as estatísticas dos novíssimos e atuais anos deste princípio de terceiro milênio. E pedi para que me dissesse os campeões entre os anos 2000 e 2010, só para ficarmos no âmbito dos tempos contemporâneos.

O bairrismo que emburrece e o pachequismo que desinforma tinham impedido que aquele jovem torcedor e aprendiz de comentarista não percebesse o tetracampeonato do Boca Juniors e uma taça do Estudiantes contra apenas três vitórias nacionais.

Ou seja, os números de hoje mantêm a pisada das décadas passadas e continuam reeditando um velho tabu que a imprensa esportiva “verdamarela” parece não querer lembrar, ao menos como obrigação de elencar os acontecimentos históricos.

Vocês sabiam, meus caros jovens, que dos catorze títulos brasileiros na Libertadores apenas três vezes os vices-campeões eram argentinos? E que das vinte e duas conquistas argentinas nove delas deixaram a taça de vice para clubes brasileiros?

É chato atirar a verdade na cara, mas, fazer o quê? Se há um futebol que rivaliza realmente com os hermanos na Libertadores, este é o uruguaio, jamais o brasileiro. Portanto, anotem, garotos, para não errar no ofício: somos fregueses dos caras, ponto.

A noite desta quarta-feira, 4 de maio, já entrou nos anais dos alfarrábios ludopédicos. Para quem imaginava que fracasso pindorâmico era coisa do passado, saiba que nunca antes na história desse país tivemos uma avalanche como a de ontem.

Paremos para pensar no nosso inconseqüente patriotismo boleiro: já pensou se quatro clubes platinos tivessem caído de uma vez só, na mesma rodada? Quantos jovens repórteres estariam cuspindo loas nas resenhas da TV, como se fôssemos os tais e imortais.

Aceitem um conselho de quem observa tudo com olhos da razão, desnudo do espírito torcedor (exceto diante dos tombos botafoguenses): quando quiserem cantar a hegemonia brasileira, reservem-se apenas ao futebol da seleção nas Copas do Mundo.

No âmbito clubístico, desde o princípio de tudo, estamos atrás de argentinos e uruguaios, tanto na Libertadores quanto na Sul-Americana e nos velhos torneios já extintos. O século XXI tem um retrato quase inalterado do século que passou.

Os platinos ganharam cinco das últimas dez edições. E para piorar, estamos assistindo a chegada de colombianos, paraguaios, equatorianos e até bolivianos despachando times brasileiros. Resta esperar o Santos; mas, talvez, só para mal alimentar de novo o ilusório pachequismo das novas mídias.

Hasta la vista, baby!

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